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SAÚDE

O que falta para a vacina contra a Covid-19 da UFPR decolar?

Para saber mais sobre a metodologia e o andamento das pesquisas da UFPR, a CASA DE NOTÍCIAS conversou com o professor do Departamento de Patologia Básica, Breno Castello Branco Beirão. Confira a entrevista abaixo ou em podcast

14/01/2021 - 14:26
Por Da redação


A Pandemia já completava um mês, quando o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) resolveu agir. A chamada pública, em parceria com o Ministério da Saúde (MS) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destinou R$ 50 milhões para pesquisas sobre a Covid-19.

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) garantiu uma parcela dos recursos, R$ 250 mil. Esse foi o ponta pé inicial para uma vacina paranaense contra a Covid-19. Por aqui, os pesquisadores optaram por uma metodologia inovadora: nanoesferas de polímero, biocompatível e biodegradável, recobertas com partes específicas da proteína Spike.  

O atraso para início das pesquisas e os recursos escassos ditam o ritmo de avanço dos estudos. O imunizante ainda está na primeira fase de testes, a chamada pré-clínica. Mas já se sabe, por exemplo, que é capaz de induzir anticorpos comparáveis e até superiores aos reportados pela vacina ChAdOx1 nCoV-19, da parceria AstraZeneca/Oxford, na fase pré-clínica em camundongos. 

Os pesquisadores paranaenses esperam encerrar essa primeira fase de teste em três meses. A partir daí a UFPR só poderá avançar se receber apoio público e/ou privado. A segunda fase, que requer testes em humanos, demanda de estrutura e muito mais recursos. 

Essas são praticamente as mesmas barreiras enfrentadas pelas demais iniciativas de pesquisas, em andamento no Brasil. O último Boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, estima que há pelo menos 10 vacinas em desenvolvimento no país. Todos em fase pré-clínica.

A liberação de R$ 390 milhões, em caráter emergencial, pelo Governo Federal para financiar até três projetos na fase 1 dos ensaios clínicos e pelo menos um projeto na fase final, pode ser decisiva para o futuro da vacina da UFPR e outras em desenvolvimento no Brasil. Mas a proposta da Medida Provisória está em análise no Ministério da Economia desde o dia 22 de Dezembro. 

Para saber mais sobre a metodologia e o andamento das pesquisas da UFPR, a CASA DE NOTÍCIAS conversou com o professor do Departamento de Patologia Básica, Breno Castello Branco Beirão. Confira a entrevista abaixo ou em podcast

 Afinal, por que estamos tão atrasados em relação aos demais países? 

Breno – No Brasil a gente precisa muito da mão de obra de pós-graduandos, ou seja, alunos de pós-graduação de Mestrado e Doutorado. Eles são nossa principal mão de obra de pesquisa. Há uma grande diferença porque fora do país têm pós doutorandos, que são funcionários basicamente, eles recebem um salário e não são alunos.

E em termos de financiamento, no Brasil eles são basicamente públicos, que é o caso da nossa vacina também. O nosso projeto com a vacina começou quando um órgão federal, o CNPq, abriu uma fonte de financiamento voltado para pesquisas sobre covid-19. Isso justifica também parte do nosso “atraso” em relação a Oxford, por exemplo. Oxford já tinha a tecnologia de vacinas sendo desenvolvida há muito tempo e por isso eles foram muito rápidos em colocar uma vacina no mercado. 

Quais os desafios da pesquisa no Brasil? 

Breno - A Pesquisa no Brasil é muito focada nas universidades, então a gente tem pouco desenvolvimento privado, baseado ou fomentado por empresas, como é muito comum de ocorrer fora do país. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, a gente tem empresas que podem ter elas mesmas um setor de pesquisa e desenvolvimento ou elas financiam as pesquisas dentro das universidades. É claro que, para que isso aconteça, a Universidade precisa ter mecanismos para repassar para essas empresas aquilo que foi produzido. E essa é a grande dificuldade que a gente tem no Brasil. É uma burocracia muito grande para que haja um envolvimento público-privado. Sempre que há interesse da indústria em interagir com uma universidade federal, isso envolve uma burocracia que muitas vezes é proibitiva. As empresas acabam desistindo antes de a parceria realmente se concretizar. O que no nosso caso em particular é uma limitação gigante, pois estamos trabalhando com uma vacina que não tem a menor possibilidade de ser levada até o mercado pela universidade sozinha. Vai ser necessário o envolvimento de uma empresa pública ou privada. 

E qual a proposta da vacina da UFPR? Ela é mesmo diferente das que já estão sendo aplicadas?

Breno - Ao invés de ter o vírus inteiro inativado, como é o caso da vacina promovida pelo Butantã, por exemplo, a gente usa só um fragmento do vírus, aderido a esse polímero bacteriano. É uma vacina muita segura já que não usa o vírus e demanda uma estrutura de produção mais simples também, já que não precisa cultivar o vírus. 

Já temos alguma vacina no mercado com essa mesma tecnologia? 

Breno - Hoje nós temos algumas vacinas que usam, sim, subunidades de patógenos. Por exemplo, a vacina contra uma bactéria chamada Haemophilus influenza. Agora, vacinas no mercado usando esse polímero não existem ainda. Essa é a novidade que a gente está inserindo. 

Mas se o polímero pode substituir o plástico, não tem problema usá-lo em uma vacina? 

Breno - A gente podia pensar em termos de poluição, por exemplo, estar consumindo plástico... Mas a gente tem que colocar no contexto de que a maioria das vacinas aplicadas hoje em seres humanos levam alumínio. Então, é tudo bem, por que são quantidades muito pequenas, e no caso desse polímero é biodegradável, ele não vai permanecer pra sempre na pessoa. Ele vai ser destruído e eliminado do organismo com o tempo. Nos nossos testes com animais ele não demonstrou nenhum sinal de problema.

E por que a universidade não consegue, sozinha, avançar para a segunda fase das pesquisas? 

Breno - Por duas razões. A primeira é que exige um financiamento muito grande para que se façam testes clínicos em humanos. A segunda é que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) exige que para que uma vacina entre na fase de testes em humanos, ela seja oriunda basicamente de uma fábrica de vacinas, e evidentemente a Universidade não tem essa estrutura para produzir um lote para testes. Então, mesmo para testes é preciso que seja oriundo de uma fábrica. É nesse ponto que a universidade está atrás de parcerias. Estamos em reuniões com a Secretaria Estadual de Saúde, de Tecnologia, com institutos públicos que têm essa estrutura, então ainda está em aberto, porque depende dessa parceria. O Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná) é um possível parceiro que estamos sondando e também estamos em busca de outros parceiros, para o caso da parceria com o Tecpar não acontecer. 

Por que, apesar do atraso, é importante que o país invista e tenha uma vacina com tecnologia 100% nacional?

Breno - O Brasil tem visto o Sistema Nacional de Imunização como uma prioridade desde a década de 1970. Naquela época o Brasil tomou a decisão de ser autônomo, depois que se viu em uma situação em que tínhamos que importar todas as vacinas que usávamos e hoje é o contrário. A gente domina e tem autonomia praticamente sobre todo o nosso calendário de vacinação em humanos. Isso não é algo que a gente está dizendo, é o governo federal que decidiu há muito tempo e é óbvio porque o país tem que ser autônomo em relação a uma tecnologia tão essencial e básica como a imunização. Seria como a gente discutir nossa capacidade de prover saneamento básico para a população. Não podemos mais depender de nenhum outro país para fazer isso. Saneamento Básico e Imunização são as duas técnicas da medicina e da biologia que mais salvaram vidas. Muito mais que cirurgias cardíacas ou oncologia. É quase auto evidente porque precisamos ter um grau de autonomia para imunizar a nossa população. As vacinas que estamos utilizando hoje vem de fora e isso vai embutir um custo, que o SUS vai ter que arcar. A gente vai ter que pagar por royalties para essas empresas, Pfizer, AstraZeneca, Sinovac pelo desenvolvimento que elas fizeram. Isso significa que o SUS vai pagar mais do que precisaria pagar caso ele mesmo tivesse feito esse desenvolvimento.

Diante disso tudo, dá pra prever o futuro da Vacina da UFPR? 

Breno - O pior cenário é que a gente não consiga uma parceria para fazer testes clínicos em humanos. Até aqui a gente não tem nenhuma razão para acreditar que ela não venha a funcionar. A tecnologia ficaria parada em termos de aplicação para a covid-19. Nesse pior cenário a gente já tem se mobilizado para usar a mesma tecnologia para outras doenças. A nossa vacina para a covid-19 se tornaria apenas um dado científico e a gente teria que buscar outras aplicações para a tecnologia que a gente desenvolveu até aqui. Não chega a ser um cenário tão ruim, porque já temos uma carta na manga para qualquer doença de interesse. 

O melhor cenário é que a gente consiga fechar uma parceria com uma dessas empresas, seja pública ou privada, e que a gente avance para testes clínicos e isso poderia acontecer dentro desse ano ainda. Vai depender da velocidade com que essas parcerias forem estabelecidas.  Isso significa que para o ano que vem, 2022, estaríamos falando de registro e uso clínico dessa vacina. 

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