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OPINIÃO

Invisível mulheres do Mundo

O passaporte feminino é muito mais caro e arriscado. Na taxa de embarque não as informam sobre a violência do caminho
10/03/2021 - 12:11
Edna Nunes

Edna Nunes

Jornalista e fundadora da Embaixada Solidária


Elas são muitas, lindas, vivas, guerreiras e invisíveis. Nem os traços diferentes, cabelos livres, sentimento pulsante, conseguem contornar a invisibilidade da fêmea deslocada, viajada, alvejada pelas péssimas condições que o mundo, às vezes, lhe dá.  Estrangeiras, forasteiras, mulheres.

O passaporte feminino é muito mais caro e arriscado. Na taxa de embarque não as informam sobre a violência do caminho, sobre todos os espinhos que a saudade de filhas e de mães sentirão.  Descobrem no caminho, a dor da lonjura e de tantas outras verdades.

Em nenhum dos carimbos, retratam a violência de não falar a mesma língua  de seus direitos. No preço da passagem não se computa que elas terão muito mais dificuldades para o mercado de trabalho, que a cultura será questionada e desrespeitada centenas de vezes.

Existem outros detalhes que ninguém conta, mas elas vão lutar com muita força. Que vão trançar cabelos enquanto dançam lembrando da tribo delas. Vão ganhar na garra o teto e o pão. Não se importam se o mercado de trabalho é formal ou não. Se o cheiro do seu tempero diferente vai invadir a vizinhança. Mesmo com um filho no colo, vão vencer a desesperança.

No chão da fábrica, vão sem precisar provar sua eficiência. No vestuário, o cabelo volumoso, trançado talvez, não preencha todas as exigências. Elas precisam ficar, talvez não por escolha, mas por ter um sonho que exija delas muito mais que a grossa camada de resiliência.  Elas migram, lutam e aguentam. 

Uma esperança na mala, um sonho no peito e um mundo que insiste em lhes tratar de qualquer jeito. Brasileiras, Muçulmanas, Indianas, Africanas, Senegalesas, Haitianas, Portuguesas, Francesas, Inglesas, Japonesas, Sírias, Sauditas, Argentinas, Paraguaias, Latinas, Ciganas, Sudanesas, Americanas, italianas, Chilenas, Chinesas.  Mulheres. Livres, escravas, felizes, traficadas, amadas, rejeitadas. O mundo é contradição.

É preciso traduzir as políticas, a justiça e os versos. O mundo precisa um lugar mais justo para elas. Ir ao mercado ou atravessar o oceano, precisa ser seguro, livre, bonito e não raro. 

Não lutem sozinhas! Convoquem os homens, em todos os idiomas. Conquistas maiores não nascem de divisões, mas através de somas. Multiplicai-vos não pelos filhos, mas pelo incentivo de aumentar todas as filas das que lutam por mais justiça e igualdade. A liberdade um dia será verdade. 

A empatia precisa atravessar a geografia, e, aos poucos o mundo precisa entender, que ao cuidar e acolher o sonho e a vida de uma mulher, estamos protegendo o universo.

Unam-se mulheres, não importa a etnia, nem o idioma em que você escreve seus versos. Escrevam suas histórias sobre e pelo mundo. Afinal, todo e qualquer ser existente de alguma forma esteve em seu ventre!

Edna Nunes da Silva - Embaixada Solidária 04/03/21
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