Habituada ao silêncio das horas tardias, eu costumava deixar a cadeira e as linhas inacabadas de meus textos para esticar as pernas andando na calçada. Naquele trecho da rua, onde a vegetação se amontoa como uma floresta espremida, os poucos sons audíveis eram latidos e miados esporádicos.
Foi em meio a esse caminhar que estalos persistentes capturaram meus sentidos. No silêncio da noite, eu ouvia um som abafado e constante; mostrava-se inútil, porém, rastrear a origem: se vinha das árvores, do poste de luz ou das fendas dos muros; o ruído era onipresente. Se fosse das árvores, de qual delas seria?
Em semanas anteriores, notara um tráfego intenso de formigas. Ao caminhar pelo bairro, desviava os passos para não pisar naqueles seres obstinados. Seguiam em fila indiana, carregando pedaços de folhas e carcaças de insetos para algum lugar impenetrável. A distância de uma quadra era itinerário comum para elas.
Naquela noite, cismei em descobrir o curso daquela correição. Lembrei-me das folhas no chão, próximas aos hibiscos no quintal da frente. Caminhei até lá e, conforme eu me aproximava, o som ganhava intensidade. Encontrara o local do trabalho implacável das cortadeiras.
Ao longo dos dias, acompanhava o ir e vir intenso e observava o ritual de desnudamento das copas. Suas vestes caídas não ficavam no chão por muito tempo; em um trabalho de equipe, eram cortadas e carregadas por garras finas e ágeis até o destino, sob a urgência de um instinto que eu conhecia de outros registros.
Lembrava-me do conto que lera nos livros infantis. Era uma história sobre a formiga e a cigarra em que a Dona Formiga era alçada a modelo de virtude por se preparar incansavelmente para o inverno, estocando alimentos, enquanto a Dona Cigarra era estigmatizada, pois passava os dias a cantar e não possuía refúgio para o frio.
Esse conto infantil era perspicaz para seu público leitor; diria até que era severo em sua lógica. Dava a impressão de estar ensinando às crianças como deveriam agir fora do universo do faz-de-conta. Muitas fábulas cumpriram esse papel, de Esopo aos Irmãos Grimm; contudo, aquela pedagogia já não parecia adequada para mim. Não era o mundo da ficção espelhado ali, mas o imundo do capitalismo, cujas máximas subjugam as pessoas.
Se são as regras da sujeição, no entanto, que fazem girar a engrenagem do capital, nós, seres vivos, não sobrevivemos apenas de “tempo é dinheiro”. O direito ao descanso no rigor da estação é o que preserva as espécies. E a arte, como a da Dona Cigarra, é o que alimenta o espírito para a sobrevivência nesse giro constante.
Há versões da fábula em que o rigor do inverno força um encontro: a artista, sem refúgio, encontra abrigo no formigueiro. Ali, enquanto as intempéries castigam, as duas espécies compartilham o tempo — uma oferecendo o sustento estocado, a outra, o alento da cantoria. A arte torna-se, então, o combustível que faz a espera ser suportável.
Na minha calçada, a realidade expandia a fábula. Aquelas cenas atravessavam os meses de outono e inverno. Eu aceitava o incômodo dos galhos pelados. Compreendia o processo: quando a árvore exibia metade da copa despida, as formigas migravam, possibilitando que a arquitetura remanescente se recuperasse para ressurgir verde e viçosa.
Compreendi que a ação era estratégica — uma economia de trocas, não de exploração. Não precisei podar as árvores; as formigas exerciam a função enquanto obtinham alimento. Eu pactuei com o movimento natural. Recusava venenos; preferia a convivência ao extermínio, observando aquele ritual repetir-se ao longo do outono.
Era como se árvores e formigas tivessem um acordo silencioso. Resolvi assinar o tratado: não pisava nas formigas, não reclamava das folhas e oferecia o silêncio necessário para que o trabalho delas soasse como música. A desordem era, afinal, sobrevivência.
Hoje, escuto com frequência da minha mesa de trabalho o som abafado e incessante da natureza completando sua órbita. Já não é um ruído estranho, mas a música das cortadeiras, tão vital quanto o canto da cigarra. Ao me aproximar do hibisco para conferir, constato que ele está, mais uma vez, prestes a despir suas vestes.





