O que deveria ser inaugurado como um símbolo de acolhimento, diversidade e reconstrução social em Marechal Cândido Rondon tornou-se, nos últimos dias, cenário de uma das mais graves violências patrimoniais e simbólicas já registradas pela Embaixada Solidária em mais de uma década de atuação. O Projeto Vila Mundo, instalado no bairro São Francisco, em Marechal Cândido Rondon (MCR), foi alvo de uma ação criminosa organizada, marcada inicialmente pelo roubo de cobre e seguida por uma escalada de furtos e destruição deliberada.
Em entrevista exclusiva à Casa de Notícias, a presidente e fundadora da Embaixada Solidária, Edna Nunes e o diretor de Relações Institucionais, Luiz Albuquerque, afirmam que reconstruir o espaço vai muito além de recuperar paredes, fiação e mobiliário: é um gesto civilizatório, um posicionamento ético diante da violência e um compromisso com a humanização do processo migratório.
Um projeto para transformar territórios e pessoas
O Vila Mundo é a segunda unidade da Embaixada Solidária e foi implantada em um imóvel alugado no bairro São Francisco - MCR, uma região pequena, periférica e historicamente pouco integrada ao centro de Marechal Cândido Rondon. O local funcionava há décadas como um espaço degradado, associado a práticas ilícitas e distanciamento urbano.
A proposta da Embaixada foi clara desde o início: ressignificar o território.
“Não é apenas uma residência. O Vila Mundo é um conceito de construção social, de encontro de culturas e de devolução de dignidade a um espaço que, por mais de 30 anos, simbolizou exclusão”, afirma a presidente da instituição, Edna Nunes.
O projeto prevê:
- Residência solidária para migrantes e refugiados já contratados por indústrias da região;
- Atendimento jurídico, médico e social;
- Espaços de convivência e cultura;
- Abertura do atendimento também para brasileiros em situação de vulnerabilidade.
Metade do público atendido pela Embaixada Solidária é formada por brasileiros em mobilidade social ou em situação de fragilidade, reforçando que o projeto não é exclusivo para migrantes, mas integrado à comunidade local.
Violência organizada: mais que um “sinistro”
Os dirigentes são categóricos ao afirmar que o ocorrido não pode ser tratado como um simples sinistro. Trata-se de uma ação violenta, organizada e reiterada, e o que tudo indica que a primeira finalidade foi o abastecimento de quadrilhas especializadas no roubo de cobre, prática criminosa em expansão no Paraná.
“Eles desligaram a energia, retiraram toda a fiação trifásica recém-instalada. Isso exige conhecimento técnico. É crime organizado”, explica Luiz Albuquerque.
Após essa primeira ação, o local foi alvo de múltiplas invasões:
- Furto de geladeiras, fogões, freezers e móveis;
- Desmonte de equipamentos para retirada de metais;
- Depredação do que não podia ser levado;
- Destruição deliberada de paredes, colchões e estruturas internas.
O prejuízo estimado ultrapassa R$ 150 mil, um impacto severo para uma Organização da Sociedade Civil Privada, que não recebe repasses públicos fixos e se mantém por doações, parcerias e trabalho voluntário.
As forças de segurança pública atuam na investigação. Há imagens cedidas por moradores, empresas e indústrias da região, e a expectativa é de responsabilização criminal dos autores desta violência.
Um bairro que pede presença social, não abandono
Para Edna Nunes, a violência também expõe uma realidade mais profunda: territórios abandonados se tornam vulneráveis ao crime.
“Quando o crime ocupa um espaço, é porque a sociedade ainda não chegou ali com a força necessária. O Vila Mundo é essa chegada”, destaca a presidente.
O projeto propõe exatamente o oposto da lógica da violência:
- Portões abertos para a comunidade;
- Espaço iluminado, organizado e culturalmente vivo;
- Presença institucional, social e cidadã;
- Parcerias com universidades, poder público e setor produtivo.
A ideia é transformar o Vila Mundo em um cartão postal social e cultural, com painéis de grafite contando a história da migração na região Oeste do Paraná — da colonização europeia às migrações contemporâneas — reconhecendo que toda a região foi construída por pessoas que vieram de outros lugares, relata Edna Nunes.
Migrantes: pessoas antes de mão de obra
A entrevista também aborda um tema sensível: a xenofobia. Embora minoritária, ela apareceu após a repercussão do caso.
Luiz Albuquerque é enfático:
Luiz Albuquerque é enfático:
“O migrante não vem porque deu errado no país dele. Ele sai porque acredita que a vida pode ser melhor. Isso é coragem, não fracasso.”
Hoje, mais de 30% da mão de obra industrial do Paraná é composta por migrantes, especialmente no terceiro turno, em frigoríficos e no setor agroindustrial. Sem eles, turnos inteiros deixariam de operar.
“Eles não tomam vagas. Ocupam postos que o brasileiro não quer. Chegam empregados, pagando impostos, tentando reconstruir a vida”, reforça Albuquerque.
A Embaixada alerta para um erro recorrente: atribuir aos migrantes a imagem dos governantes de seus países.
“Muitos são vítimas diretas desses sistemas políticos, de ditaduras, crise climática, conflitos ou colapsos econômicos. Confundir povo com governo é retirar dessas pessoas até o direito de discordar”, destacou Edna.
Reconstruir é um ato coletivo
Após a violência, a Embaixada Solidária faz um chamado claro à sociedade: ninguém reconstrói sozinho.
Hoje, a instituição precisa:
- Restabelecer a energia elétrica;
- Refazer estruturas básicas;
- Repor materiais e equipamentos;
- Contar com profissionais voluntários e apoio institucional.
Os pedidos de ajuda estão sendo feitos exclusivamente por canais oficiais, com total transparência e prestação de contas.
“Antes, nós éramos apenas solidariedade. Agora, também precisamos dela. Reconstruir o Vila Mundo é afirmar que a humanidade não será derrotada pela violência”, afirma a presidente.
Vila Mundo: símbolo do que queremos ser
Para a Casa de Notícias, a história do Vila Mundo não é apenas sobre crime ou prejuízo material. É sobre qual sociedade escolhemos construir.
Abraçar o processo migratório é reconhecer que homens, mulheres e crianças chegam ao Brasil movidos pela mesma esperança que trouxe os antepassados que formaram Marechal Cândido Rondon e toda a região Oeste.
Reconstruir o Vila Mundo é afirmar que:
A dignidade humana vem antes do preconceito;
Territórios podem ser ressignificados;
A diversidade não ameaça, constrói;
A humanidade se revela quando a sociedade decide dar as mãos.
E, como conclui os dirigentes da Embaixada Solidária, quando a violência tenta impor o medo, reconstruir é o gesto mais político, humano e transformador que existe.
Faça parte dessa corrente humana e transformadora, seja com o seu conhecimento profissional, que pode fazer a diferença neste momento, ou contribua, com qualquer valor, exclusivamente na chave PIX da Embaixada: 39.951.531.0001-03 ou na Campanha Benfeitoria, neste link.
Solidarizaram
Até o fechamento desta edição o Superintendente Geral de Governança Migratória do Governo do Estado, o Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas do Paraná – CERMA/PR, O CEAMIG – Centro de Apoio ao Migrante, entidade pertencente à Congregação Scalabriniana e o Deputado Estadual, Goura manifestaram solidariedade a Embaixada Solidária.










