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CIDADANIA

Vila Mundo: reconstruir é um ato de humanidade

Em entrevista exclusiva à Casa de Notícias, dirigentes da Embaixada Solidária falam sobre a violência sofrida pelo projeto Vila Mundo, a ressignificação territorial do bairro São Francisco em Marechal Cândido Rondon e o papel da sociedade na humanização da política migratória.

27/01/2026 - 17:35
Por Redação


O que deveria ser inaugurado como um símbolo de acolhimento, diversidade e reconstrução social em Marechal Cândido Rondon tornou-se, nos últimos dias, cenário de uma das mais graves violências patrimoniais e simbólicas já registradas pela Embaixada Solidária em mais de uma década de atuação. O Projeto Vila Mundo, instalado no bairro São Francisco, em Marechal Cândido Rondon (MCR), foi alvo de uma ação criminosa organizada, marcada inicialmente pelo roubo de cobre e seguida por uma escalada de furtos e destruição deliberada.

Em entrevista exclusiva à Casa de Notícias, a presidente e fundadora da Embaixada Solidária, Edna Nunes e o diretor de Relações Institucionais, Luiz Albuquerque, afirmam que reconstruir o espaço vai muito além de recuperar paredes, fiação e mobiliário: é um gesto civilizatório, um posicionamento ético diante da violência e um compromisso com a humanização do processo migratório.

Um projeto para transformar territórios e pessoas


O Vila Mundo é a segunda unidade da Embaixada Solidária e foi implantada em um imóvel alugado no bairro São Francisco - MCR, uma região pequena, periférica e historicamente pouco integrada ao centro de Marechal Cândido Rondon. O local funcionava há décadas como um espaço degradado, associado a práticas ilícitas e distanciamento urbano.

A proposta da Embaixada foi clara desde o início: ressignificar o território.


“Não é apenas uma residência. O Vila Mundo é um conceito de construção social, de encontro de culturas e de devolução de dignidade a um espaço que, por mais de 30 anos, simbolizou exclusão”, afirma a presidente da instituição, Edna Nunes.

O projeto prevê:


  • Residência solidária para migrantes e refugiados já contratados por indústrias da região;
  • Atendimento jurídico, médico e social;
  • Espaços de convivência e cultura;
  • Abertura do atendimento também para brasileiros em situação de vulnerabilidade.

Metade do público atendido pela Embaixada Solidária é formada por brasileiros em mobilidade social ou em situação de fragilidade, reforçando que o projeto não é exclusivo para migrantes, mas integrado à comunidade local.

Violência organizada: mais que um “sinistro”


Os dirigentes são categóricos ao afirmar que o ocorrido não pode ser tratado como um simples sinistro. Trata-se de uma ação violenta, organizada e reiterada, e o que tudo indica que a primeira finalidade foi o abastecimento de quadrilhas especializadas no roubo de cobre, prática criminosa em expansão no Paraná.

“Eles desligaram a energia, retiraram toda a fiação trifásica recém-instalada. Isso exige conhecimento técnico. É crime organizado”, explica Luiz Albuquerque.

Após essa primeira ação, o local foi alvo de múltiplas invasões:

  • Furto de geladeiras, fogões, freezers e móveis;
  • Desmonte de equipamentos para retirada de metais;
  • Depredação do que não podia ser levado;
  • Destruição deliberada de paredes, colchões e estruturas internas.

O prejuízo estimado ultrapassa R$ 150 mil, um impacto severo para uma Organização da Sociedade Civil Privada, que não recebe repasses públicos fixos e se mantém por doações, parcerias e trabalho voluntário.

As forças de segurança pública atuam na investigação. Há imagens cedidas por moradores, empresas e indústrias da região, e a expectativa é de responsabilização criminal dos autores desta violência.

Um bairro que pede presença social, não abandono


Para Edna Nunes, a violência também expõe uma realidade mais profunda: territórios abandonados se tornam vulneráveis ao crime.

“Quando o crime ocupa um espaço, é porque a sociedade ainda não chegou ali com a força necessária. O Vila Mundo é essa chegada”, destaca a presidente.

O projeto propõe exatamente o oposto da lógica da violência:

  • Portões abertos para a comunidade;
  • Espaço iluminado, organizado e culturalmente vivo;
  • Presença institucional, social e cidadã;
  • Parcerias com universidades, poder público e setor produtivo.

A ideia é transformar o Vila Mundo em um cartão postal social e cultural, com painéis de grafite contando a história da migração na região Oeste do Paraná — da colonização europeia às migrações contemporâneas — reconhecendo que toda a região foi construída por pessoas que vieram de outros lugares, relata Edna Nunes.

Migrantes: pessoas antes de mão de obra


A entrevista também aborda um tema sensível: a xenofobia. Embora minoritária, ela apareceu após a repercussão do caso.

Luiz Albuquerque é enfático:

“O migrante não vem porque deu errado no país dele. Ele sai porque acredita que a vida pode ser melhor. Isso é coragem, não fracasso.”

Hoje, mais de 30% da mão de obra industrial do Paraná é composta por migrantes, especialmente no terceiro turno, em frigoríficos e no setor agroindustrial. Sem eles, turnos inteiros deixariam de operar.

“Eles não tomam vagas. Ocupam postos que o brasileiro não quer. Chegam empregados, pagando impostos, tentando reconstruir a vida”, reforça Albuquerque.

A Embaixada alerta para um erro recorrente: atribuir aos migrantes a imagem dos governantes de seus países.

“Muitos são vítimas diretas desses sistemas políticos, de ditaduras, crise climática, conflitos ou colapsos econômicos. Confundir povo com governo é retirar dessas pessoas até o direito de discordar”, destacou Edna.

Reconstruir é um ato coletivo


Após a violência, a Embaixada Solidária faz um chamado claro à sociedade: ninguém reconstrói sozinho.

Hoje, a instituição precisa:

  • Restabelecer a energia elétrica;
  • Refazer estruturas básicas;
  • Repor materiais e equipamentos;
  • Contar com profissionais voluntários e apoio institucional.

Os pedidos de ajuda estão sendo feitos exclusivamente por canais oficiais, com total transparência e prestação de contas.

“Antes, nós éramos apenas solidariedade. Agora, também precisamos dela. Reconstruir o Vila Mundo é afirmar que a humanidade não será derrotada pela violência”, afirma a presidente.


Vila Mundo: símbolo do que queremos ser


Para a Casa de Notícias, a história do Vila Mundo não é apenas sobre crime ou prejuízo material. É sobre qual sociedade escolhemos construir.

Abraçar o processo migratório é reconhecer que homens, mulheres e crianças chegam ao Brasil movidos pela mesma esperança que trouxe os antepassados que formaram Marechal Cândido Rondon e toda a região Oeste.

Reconstruir o Vila Mundo é afirmar que:


A dignidade humana vem antes do preconceito;
Territórios podem ser ressignificados;
A diversidade não ameaça, constrói;
A humanidade se revela quando a sociedade decide dar as mãos.

E, como conclui os dirigentes da Embaixada Solidária, quando a violência tenta impor o medo, reconstruir é o gesto mais político, humano e transformador que existe.

Faça parte dessa corrente humana e transformadora, seja com o seu conhecimento profissional, que pode fazer a diferença neste momento, ou contribua, com qualquer valor, exclusivamente na chave PIX da Embaixada: 39.951.531.0001-03 ou na Campanha Benfeitoria, neste link.

Solidarizaram


Até o fechamento desta edição o Superintendente Geral de Governança Migratória do Governo do Estado, o Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas do Paraná – CERMA/PR, O CEAMIG – Centro de Apoio ao Migrante, entidade pertencente à Congregação Scalabriniana e o Deputado Estadual, Goura manifestaram solidariedade a Embaixada Solidária. 

Arte selma