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CULTURA

A delicadeza de escutar o que não se diz

Em seu primeiro livro, o psicomotricista Diogo Johannes converte uma cena de desorganização em narrativa sensível sobre autismo, família e acolhimento
27/04/2026 - 11:42
Por Redação - Selma Becker


Psicomotricista e escritor, Diogo Johannes transforma em literatura uma cena nascida da observação clínica e da experiência cotidiana com crianças autistas. Em João e o Ventilador de Feijão, a delicadeza da aquarela encontra a dureza das crises, e o que poderia ser apenas relato se converte em narrativa capaz de tocar a infância, interpelar adultos e abrir espaço para o diálogo sobre um tema ainda cercado de silêncio.
 
Johannes uniu as vivências sensoriais presentes nos autistas e sua paixão pela história do Dom Quixote, para narrar caminhos que nem sempre são flores, mas com amor e acolhimento, podem romper o silêncio e romper tabus.
 
Mantivemos na integra a entrevista com o autor, para o leitor mergulhar, nesta narrativa intensa, delicada e humana.
 
 
Selma Becker SB – Qual é sua formação acadêmica e profissional? E como essa trajetória o preparou para abordar um tema tão sensível como o autismo?
 
Diogo Johannes DJ - Sou formado em educação física, com pós-graduação em psicomotricidade relacional e em psicologia corporal. Estudar e atuar com a psicomotricidade relacional foi fundamental para compreender o funcionamento da mente da criança, sobretudo da criança autista. 
 
Aceitar e acolher as dificuldades da criança está em primeiro lugar, mas o autoconhecimento e o resgate do prazer de brincar, elementos fundamentais da psicomotricidade relacional, é o que fazem a diferença na minha atuação e no meu olhar para com as crianças. 
 
 
SB – Este é seu primeiro livro? Como ele nasceu?
DJ  - Esse é o meu primeiro livro. O João e o Ventilador de Feijão nasceu depois de uma sessão com um paciente que se desorganizava e entrava em crises constantemente. Esse paciente chegou desorganizado em minha sala, onde havia um ventilador ligado; ele ignorou completamente a minha existência e se ajoelhou diante do ventilador e ali permaneceu todo o atendimento. Percebi o quanto isso o organizava internamente e a história começou a surgir na minha cabeça. Num segundo momento organizamos a dinâmica familiar, com mudanças nos horários do trabalho do pai e a mãe voltou a trabalhar. Em um mês as crises diminuíram consideravelmente e o menino voltou a frequentar a escola. Depois de uma mensagem da mãe relatando os avanços do menino tive um insight e acabei por escrever o livro. 
 
SB – Houve algum episódio na sua carreira ou vida pessoal que o fez perceber a necessidade de abordar este tema através da literatura infantil?
DJ - Eu também trabalho como professor em uma escola e presenciei diversas crises de crianças autistas nesse ambiente. Percebi que as professoras, de modo geral, tentavam esconder esses momentos a todo o custo, o que aumentava o receio das demais crianças, já que elas não sabiam por que o colega agia dessa forma. Pensei que o livro pudesse ser um auxílio também para essa quebra de tabu e nada melhor que uma história infantil para ilustrar dificuldades reais. Atualmente tenho feito contação de histórias em algumas escolas e tenho tido excelentes retornos por parte das crianças!
 
SB - O que te inspirou para escrever "João e o Ventilador de Feijão"?
DJ - Primeiramente a história do meu paciente. Em segundo lugar a falta de informações, para as crianças, sobre esse tema específico que são as crises.
 
SB – Por que escolheu a metáfora do "ventilador de feijão" ?
DJ  - Crianças autistas amam movimentos repetitivos e certas sensações sensoriais também as organizam. O ventilador traz essas duas características e achei pertinente trazer algo do mundo real. Outro ponto é que eu amo a história do Dom Quixote e ver o menino em crise me lembrou de quando esse personagem lutava com seus dragões feitos de moinho de vento. Juntei os elementos pertinentes ao autismo com uma de minhas histórias favoritas e o livro nasceu.
 
SB – Qual a mensagem central do livro e como você espera que essa mensagem ressoe? Para quem é esse livro?
DJ - Apesar do livro falar sobre uma criança que entra em crises a mensagem central do livro é sobre a importância da saúde mental da mãe. Acredito que o investimento na saúde da mãe é o maior investimento que podemos fazer para a saúde da criança. Na história do livro, e em muitos casos de mães de autistas, elas esquecem que, além de mãe, também são mulheres. O resgate da mulher, que muitas vezes se perde e se dilui no papel de mãe, faz com que a criança tenha um contato mais direto com o mundo. No caso da história do meu livro essa família tinha a presença do pai, que foi disponível e compreendeu que mudanças precisavam acontecer na base familiar. Isso facilitou muito no processo terapêutica do menino e ajudou a mãe a encontrar novamente a mulher dentro de si que estava perdida. 
 
Apesar do livro falar sobre uma criança que entra em crises a mensagem central do livro é sobre a importância da saúde mental da mãe
 
SB – Qual foi o maior desafio ao tentar transformar uma experiência de crise em algo que pudesse ser compreendido e até apreciado por crianças?
 
DJ - Convencer a ilustradora que o caminho não poderia ser feito de “flores”. A ilustradora do livro, Juliana Oliveira, não tinha muito contato e não conhecia as peculiaridades do autismo. Por isso ela sempre tentava suavizar um pouco as ilustrações. É claro que muitas ideias dela também foram acolhidas e estão presentes no livro, mas as imagens de agressão e autoagressão ela de início não era a favor e precisei convencê-la.
 
SB - Quem é a ilustradora? Como você a escolheu e qual era sua visão para as ilustrações?
DJ - Foi a carioca Juliana Oliveira. Encontrei essa artista no Instagram e seu trabalho me chamou logo a atenção, pois ela trabalha com aquarela. Pensei que seria interessante esse contraste entre a sutileza desse tipo de ilustração com a brutalidade dos comportamentos de uma criança em crise. Acredito que funcionou muito bem! 
 
SB - As ilustrações foram desenvolvidas para serem sensorialmente amigáveis para crianças autistas? Que cuidados foram tomados com cores, formas e complexidade visual?
DJ - Esse foi um ponto bem controverso. Não quis fazer um livro completamente confortável visualmente. O livro está lindo, as ilustrações possuem uma suavidade incrível! Mas nos momentos das crises procurei o maior desconforto possível, até porque o livro foi escrito pensando também em crianças típicas e, para se quebrar esse tabu, precisamos ser diretos ao ponto. Algumas crianças não gostam dessa parte específica da história, o que as fazem pensar como é viver e conviver com essas sensações de dor e desconforto todos os dias. Sinto que isso traz empatia e compreensão de que aquele amigo que entra em crise não é uma criança má, mas sim uma criança em sofrimento. 
 
SB – Você menciona que o livro aborda "as crises em crianças autistas" como um tabu. Por que você acredita que esse tema é tão pouco discutido e qual é o impacto dessa falta de diálogo?
 
DJ - A agressividade das crianças é um tabu. Quando falamos de uma crise numa criança autista, essa agressividade é levada ao extremo. No geral os adultos não compreendem que a agressividade é algo positivo e não negativo e procuram esconder e se esconder desse conteúdo que é inato a todos os seres humanos. Todavia as crises expõem as crianças autistas, deixam os adultos amedrontados e as demais crianças receosas de brincar com a criança que apresenta esse tipo de comportamento. Esconder ou fingir que nada aconteceu só varre a sujeira para debaixo do tapete; esclarecer e dialogar pode ser um caminho mais difícil, mas acredito que é só a partir do diálogo e da informação que a verdadeira inclusão pode acontecer. 
 
SB – Como você espera que "João e o Ventilador de Feijão" contribua para quebrar esse tabu? Que mudanças de perspectiva você gostaria de ver?
 
DJ - Espero que as escolas abordem esse tema como abordam as mudanças dos estados físicos da água. Espero de coração que as crises não sejam motivo para a exclusão de crianças autistas, mas sim um motivo para compreender como elas funcionam. 
 
SB –  Seu livro pode ser usado por educadores em sala de aula ou em contextos de inclusão?
DJ - O livro foi criado com essa intenção e espero que seja usado em contações de histórias junto com os contos de fadas e com as histórias clássicas que já conhecemos. 
 
SB - Complete esta frase: "Escrevi este livro porque acredito que..." 
DJ  - Escrevi este livro porque acredito que para se organizar é preciso, antes, desorganizar. Nós adultos queremos manter as crianças tranquilas, sem que elas criem muitos problemas. Todavia, mexer em certos vespeiros é necessário, ainda mais quando caminhamos a passos largos para um contexto em que muitas crianças estão sendo diagnosticadas com autismo. Sinto que muitas vezes a dificuldades não está nas crianças típicas em ouvir e compreender sobre o que se passa na cabeça e no corpo de uma criança autista; mas sim nos adultos, que não sabem ou não têm coragem de abordar esse assunto. Quando o adulto se dispõe a explicar as crianças se abrem para o assunto e o preconceito fica incapacitado de criar raízes.   
 
Acompanhe o @diogojohannes no Instagram, ali você pode adquirir o livro.
Arte selma