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COOPERATIVISMO

Quanto maior a crise, mais importante se torna o papel das cooperativas, afirma, Roberto Rodrigues

Para o ex-ministro da Agricultura, o cooperativismo promove inclusão social e econômica, fortalece o desenvolvimento e contribui para a construção da paz

22/08/2026 - 18:00
Por Selma Becker


Em um cenário marcado por instabilidade econômica, conflitos geopolíticos e aumento das desigualdades, as cooperativas assumem um papel cada vez mais estratégico. A avaliação é do engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e embaixador especial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para o Cooperativismo.

Reconhecido por sua atuação em defesa do cooperativismo agropecuário e de crédito rural, Rodrigues afirma que a relevância dessas organizações aumenta justamente nos momentos de maior dificuldade. Para ele, as cooperativas são instrumentos de inclusão social e econômica, especialmente para pequenos produtores e comunidades que enfrentam dificuldades de acesso ao crédito e a outros serviços financeiros.

“Quanto maior a crise, mais importante se torna o papel das cooperativas”, afirma.

Segundo Rodrigues, as cooperativas oferecem mais do que recursos financeiros. Elas também proporcionam acesso a tecnologia, equipamentos, informação e orientação, elementos essenciais para a permanência dos produtores na atividade e para o desenvolvimento das comunidades.

Crédito próximo da realidade local

Ao comparar as cooperativas de crédito com os bancos tradicionais, Rodrigues destaca uma característica central do modelo cooperativista: o associado é, ao mesmo tempo, cliente, proprietário e investidor da instituição.

Essa relação aproxima a cooperativa da realidade local e das necessidades dos cooperados. Em muitos municípios, especialmente no interior do país, a instituição cooperativista representa a principal  e, em alguns casos, a única alternativa de acesso a serviços financeiros para pequenos produtores, empreendedores e famílias.

Na avaliação do ex-ministro, o fortalecimento do cooperativismo de crédito no Brasil também está relacionado às mudanças institucionais ocorridas a partir da Constituição de 1988. Com o reconhecimento das cooperativas como integrantes do sistema financeiro, o setor passou a contar com regras mais claras de funcionamento, controle e fiscalização.

Esse processo contribuiu para a profissionalização da gestão e para o aumento da credibilidade das cooperativas de crédito.

Inclusão social e econômica

Para Rodrigues, o cooperativismo surgiu historicamente como uma resposta a processos de exclusão. As primeiras cooperativas se desenvolveram na Europa durante a Revolução Industrial, período marcado pela concentração de renda, pelo desemprego e pela falta de alternativas econômicas para grande parte da população.

A lógica, segundo ele, permanece atual. Em períodos de crise, a falta de renda, o desemprego, a insegurança alimentar e as dificuldades de acesso ao crédito ampliam a exclusão social. Nesse contexto, as cooperativas ajudam a preservar atividades produtivas, gerar oportunidades e fortalecer a autonomia das comunidades.

A inclusão promovida pelo cooperativismo não se limita ao aspecto econômico. Ao reunir pessoas em torno de objetivos comuns, as cooperativas estimulam a participação social, a solidariedade e a responsabilidade coletiva.

Cooperativas e construção da paz

O ex-ministro relaciona o fortalecimento das cooperativas à construção de sociedades mais organizadas e menos vulneráveis à exploração. Quanto maior o grau de organização social, argumenta, maior tende a ser a transparência e a capacidade de enfrentar problemas coletivos.

A exclusão, por outro lado, ameaça a democracia e a paz. Populações sem acesso a trabalho, renda, crédito e oportunidades tornam-se mais vulneráveis à instabilidade social e política.

Nesse sentido, as cooperativas contribuem para a paz ao criar mecanismos de participação, pertencimento e distribuição de oportunidades. O modelo estimula a busca por soluções coletivas e reduz a dependência de estruturas que, muitas vezes, não atendem às necessidades das comunidades.

Desenvolvimento e segurança alimentar

Rodrigues também vê o agronegócio brasileiro como parte da resposta aos principais desafios globais. O país tem potencial para ampliar a produção de alimentos e energia, gerar empregos, reduzir desigualdades e desenvolver tecnologias voltadas às condições tropicais.

Na visão do ex-ministro, uma agricultura tropical estruturada e sustentável poderia servir de referência para outras regiões, como a América Latina, a África e a Ásia Tropical.

Esse potencial, no entanto, depende de crédito, seguro rural, segurança jurídica, planejamento e políticas públicas consistentes. Para Rodrigues, o Brasil precisa criar condições para que os produtores continuem investindo, mesmo em um cenário internacional marcado por incertezas.

Crédito e seguro como instrumentos de estabilidade

Rodrigues defende uma articulação mais estreita entre crédito e seguro rural. Enquanto o crédito estimula a produção e os investimentos, o seguro oferece proteção diante de perdas e imprevistos.

A combinação entre os dois instrumentos será fundamental para garantir estabilidade à atividade agropecuária em um período marcado por mudanças climáticas, oscilações econômicas e tensões comerciais.

Na avaliação de Rodrigues, o crédito impulsiona o crescimento, enquanto o seguro oferece estabilidade e proteção à atividade produtiva.

A ampliação desses mecanismos, especialmente para pequenos e médios produtores, pode reduzir riscos, preservar a renda no campo e impedir que crises pontuais se transformem em processos permanentes de exclusão.

Um modelo para tempos de incerteza

Diante de um mundo marcado por conflitos, polarização e insegurança, Roberto Rodrigues sustenta que o cooperativismo deve ocupar uma posição central nas estratégias de desenvolvimento.

Mais do que uma alternativa financeira ou empresarial, as cooperativas representam, em sua avaliação, um modelo de organização social baseado na participação, na responsabilidade coletiva e na distribuição de oportunidades.

Ao fortalecer produtores, trabalhadores e comunidades, o cooperativismo contribui para a inclusão econômica, estimula o desenvolvimento regional e reduz fatores que alimentam a desigualdade e a instabilidade.

Para Rodrigues, essa é a razão pela qual as cooperativas se tornam ainda mais relevantes nos períodos de crise: elas ajudam a transformar a vulnerabilidade individual em capacidade coletiva de resistência, crescimento e construção da paz.

O Dr. Roberto Rodrigues esteve em Toledo a convite da Sicredi Progresso PR/SP palestrando sobre a importância do cooperativismo, durante a comemoração dos 45 anos da Cooperativa e o lançamento do livro: Sicredi Progresso PR/SP – Aprendiz do Tempo.

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