OPINIÃO

As veias secas da América Latina

A geopolítica líquida da América Latina gera um novo impasse entre as nações: Tentativa de encher reservatório de Itaipu durante seca histórica causa perdas econômicas à Argentina, em pleno escoamento da safra

20/04/2020 - 11:06
Camila Andrade

Camila Andrade

Curiosa por natureza e jornalista por formação. Sonha em ser cidadã do mundo e vive a lapidar a própria alma. Viciada em música, livros, viagens e café.


Da colonização europeia ao imperialismo contemporâneo dos Estados Unidos, As Veias Abertas da América Latina argumenta contra a exploração econômica e a dominação política do continente. Mas a quase quinquenária obra do uruguaio, Eduardo Galeno, não aprofunda os golpes e feridas cicatrizadas entre os próprios latinos.

Herança de uma história sombria ou não, muito do sangue que corre nessas veias é fruto das tensões internas. No século XIX a artéria foi a bacia do rio da Prata. As fortalezas paraguaias tinham sido construídas nas margens do baixo curso do rio Paraguai, mas foi no Rio Paraná, durante a Batalha Naval do Riachuelo que o destino do maior conflito armado da América Latina foi selado. E é nesse mesmo rio que agora se desenha um novo conflito.

A falta de água nas Cataratas do Iguaçu, pode ser a gota d’água. Na fronteira do Brasil com a Argentina, o complexo de mais de 270 cachoeiras é uma das sete maravilhas do mundo. Mas a estiagem faz com que o cenário, há dias, mais pareça cânions que cachoeiras. “É uma das estiagens mais severas dos últimos 50 anos”, diz o diretor de meio ambiente e ação social da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Júlio Gonchorosky.

As mudanças climáticas e a consequente redução de florestas são apontadas pelo chefe do Parque Nacional do Iguaçu, na Argentina, Sergio Acosta, como as principais causas de inundações e de secas como essa. Os reflexos vão para além do turismo.

Na mesma bacia hidrográfica, a gigante Itaipu Binacional também sente os efeitos da estiagem. É por isso que a hidrelétrica – maior produtora de energia do mundo – decidiu guardar água nos reservatórios. A intenção é atravessar o chamado ‘período seco’ na região dos lagos das usinas, que vai de maio ao final de outubro.

Acontece que a decisão dos sócios Brasil e Paraguai, não agradou a também vizinha, Argentina. Por conta de Itaipu e das demais barragens, o Brasil controla a principal fonte de água doce da Argentina: o rio Paraná. E em meio a colheita, o país alega que o fechamento das barragens causou o carregamento de 7.500 toneladas a menos de grãos nos navios, nos terminais portuários de Rosário. O impacto na economia não para por aí. Afeta ainda, a atividade pesqueira e o fornecimento de água potável na cidade das Cataratas.

Para tentar uma solução pacífica, que normalize o fluxo dos rios Iguaçu, Paraná e Uruguai, as parlamentares argentinas do Mercosul, Cecilia Britto e Julia Perié, apresentaram um projeto ao Itamaraty. Elas pedem a reabertura dos comportas das barragens perto da província de Missiones.

Mas apesar da redução da demanda por energia em função da pandemia do novo coronavírus, Brasil e Paraguai tendem a não atender o pedido de ajuda. Técnicos da área energética consideram que uma resposta positiva a demanda argentina seria o mesmo que “desperdiçar dólar pelo vertedouro”. Isso porque “as empresas energéticas têm que respeitar uma vazão de efluente mínima à jusante. E a Itaipu certamente não irá muito além do que é obrigatório”. 

Os extremos políticos, do argentino Alberto Fernandez à esquerda e do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, à extrema-direita podem não contribuir para uma solução pacífica.

É por isso que a geopolítica líquida da América Latina pode mais uma vez, levar a um conflito entre as nações. Ironicamente, o centro das disputas é a água doce que corre pelas veias do continente. Um recurso cada vez mais valioso e estratégico no território, que detém as maiores reservas mundiais.

 

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