Para quem vê de fora, a destinação dos resíduos sólidos e orgânicos pode parecer apenas uma discussão técnica de gestão pública. Para centenas de famílias de catadores e moradores da Região Oeste do Paraná, no entanto, a forma como o lixo é tratado é a linha que divide a degradação social da dignidade, da renda e da segurança alimentar.
Essa transformação territorial ganhou centralidade no 1º Fórum de Políticas Públicas e Sustentabilidade na Região Oeste do Paraná. O encontro reuniu cerca de 300 gestores públicos, acadêmicos, representantes de conselhos e lideranças comunitárias no Centro Integrado de Apoio à Melhor Idade (CIAMI), em Santa Terezinha de Itaipu. Mobilizando representantes de 49 municípios e cerca de 170 entidades não governamentais, o evento foi realizado pela Itaipu Binacional e organizado em parceria com o Núcleo de Cooperação Socioambiental da Região Oeste e a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), por meio do Projeto Saúde Territorial e Inclusão Socioambiental (Fundecamp).
A proposta do encontro foi discutir saídas concretas para os gargalos históricos da região, integrando preservação ambiental, saúde pública, transparência e inclusão social.
Ciência, articulação em rede e os três eixos do projeto
A base do encontro é resultado de um diagnóstico construído ao longo de dois anos pelo Núcleo de Cooperação Socioambiental para identificar e mitigar os maiores desafios do território. A coordenadora do Núcleo, Rosselane Giordani, explicou que a iniciativa integra ciência, gestão pública e sociedade civil em torno de metas comuns.
“O projeto coletivo Saúde Territorial foi construído pelo Núcleo de Cooperação Socioambiental ao longo de dois anos, identificando problemáticas centrais e colocando desafios para que prefeituras, universidades e organizações da sociedade civil pensassem em ações para mitigar esses gargalos. O projeto foi estruturado em três eixos: a questão da saúde, da gestão de resíduos e da vulnerabilidade social das comunidades imigrantes. É muito importante essa articulação dentro do Núcleo, em que a Unioeste e a Fundecamp, como proponentes, cumprem o papel de dar capilaridade para que as ações aconteçam dentro do território”, pontuou Rosselane.
A coordenadora destacou ainda que a participação comunitária é a engrenagem decisiva para a longevidade das políticas públicas.
“A participação das entidades e da comunidade no Núcleo é fundamental, porque ele é um espaço de diálogo, articulação, formação e estruturação de ações para o desenvolvimento regional. Compreendemos que as ações em rede potencializam e fortalecem as políticas que já existem, como a estruturação dos conselhos de saúde. A participação social é determinante para o fortalecimento das políticas públicas.”
O impacto direto: emprego, salário e dignidade para as famílias
No município-sede, a resposta para o descarte de resíduos ganhou rosto e endereço por meio da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Santa Terezinha de Itaipu (ACARESTI) e da Unidade de Valorização de Resíduos Orgânicos (UVRO), que iniciou suas atividades em 1º de janeiro de 2025.
O prefeito de Santa Terezinha de Itaipu, Antonio Luiz Bendo, afirmou que o grande valor do modelo implementado em parceria com a Itaipu Binacional é o impacto direto no orçamento de quem trabalha na reciclagem.
“Nós temos aqui políticas públicas que são referências no Paraná e no Brasil, que são a UVRO e a ACARESTI. Além de retirar o lixo reciclável da rua, elas geram emprego, levam o pão para as famílias e garantem um salário bom para cada trabalhador. A UVRO começou agora, em 1º de janeiro de 2025, e vem desenvolvendo ainda mais empregos. Essa troca de experiências entre os municípios é fundamental para o nosso município, para o Estado e para o Brasil”, destacou.
Prevenção de tragédias e a dívida histórica com o território
Além da geração de renda na ponta, a destinação dos resíduos sólidos e orgânicos tem impacto direto na segurança de toda a comunidade regional. Com os efeitos crescentes das mudanças climáticas, o tratamento correto do lixo deixa de ser apenas uma questão estética para se tornar uma medida de prevenção de desastres.
O diretor de Coordenação da Itaipu Binacional, Carlos Carboni, destacou a responsabilidade histórica com a população do Oeste paranaense e a necessidade de preparar as cidades.
“O Oeste do Paraná, até pelos impactos que sofreu na construção da usina, é prioridade absoluta das ações que desenvolvemos. A intenção é ter uma ação coordenada envolvendo municípios e entidades da sociedade civil. De um lado, temos os catadores, que conseguem ter uma renda melhor; de outro, damos a destinação correta aos orgânicos. É um jeito de proteger o meio ambiente num momento de mudanças climáticas. Precisamos nos adaptar e nos preparar para que haja menos tragédias, como as que ocorreram recentemente no Rio Grande do Sul e nas regiões Oeste e Sudoeste”, explicou Carboni.
Transparência pública, controle social e a voz do cidadão na saúde
O impacto social do projeto também alcança a relação do cidadão com a gestão do dinheiro público. Painéis conduzidos por técnicos e pelo ouvidor-geral do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) defenderam o fortalecimento dos conselhos e das ouvidorias municipais como canais diretos de escuta da população.
O gestor do Projeto Saúde Territorial e Inclusão Socioambiental (Fundecamp), Alessandro Schneider, destacou a importância da integração da sociedade civil para fazer valer os direitos da comunidade e estruturar a fiscalização local.
“Os conselhos municipais de saúde, de meio ambiente e de inclusão social têm uma grande importância e fazem a diferença, porque o nosso objetivo no projeto é aglutinar, organizar e fazer com que os conselhos municipais sejam órgãos fiscalizadores das políticas públicas, para que elas sejam desenvolvidas e aplicadas para melhorar a qualidade de vida da população aqui do Oeste do Paraná”, afirmou.
Sobre a dinâmica das discussões, o conselheiro titular do Conselho Municipal de Saúde de Cascavel (PR), Elton José Munchen, avaliou que o evento superou as expectativas, principalmente pelo aprofundamento promovido pelos técnicos do Tribunal de Contas.
“A questão da ouvidoria traz o usuário para participar mais da gestão e das políticas públicas implementadas no seu território. Quando a população participa da gestão, o território se transforma”, afirmou Munchen.
O conselheiro sublinhou também que compartilhar os projetos-modelo desenvolvidos na região melhora o controle social e a aplicação dos recursos da saúde.
“Isso transforma o território, melhora a transparência pública, inclusive dos recursos, e a cidadania desenvolvida pelo cidadão faz a diferença”, observou.
A experiência do campo: do lixo à oportunidade
No período da tarde, as visitas técnicas à Unidade de Valorização de Recicláveis (UVR) e à UVRO permitiram que gestores e técnicos de outros municípios vissem de perto a operação que transforma o lixo orgânico em recurso e reduz a sobrecarga nos aterros sanitários.
A educadora ambiental e coordenadora de Gestão de Resíduos Sólidos de Guaíra, Marlene Dallacosta, classificou a visita à UVRO como altamente inspiradora.
“Ver de perto uma iniciativa que transforma resíduos orgânicos em um recurso de valor nos mostra que a sustentabilidade acontece quando existe planejamento, compromisso e cooperação”, disse Marlene.
Ela reiterou que retorna ao seu município motivada a multiplicar a experiência, adaptada à realidade local.
“A grande lição que levamos é que o resíduo pode deixar de ser um problema e se tornar uma oportunidade, aumentando a vida útil dos aterros sanitários e gerando benefícios para toda a comunidade”, concluiu a educadora.
Ao avaliar o balanço geral do evento e projetar os próximos passos da iniciativa no território, Alessandro Schneider enfatizou:
“Foi um sucesso, muito bem representado. As palestras dos representantes do Tribunal de Contas e as apresentações do Conselho de Saúde, das UVR e da UVRO foram momentos de muito aprendizado. Não tenho dúvida de que os próximos encontros serão ainda maiores”, finalizou o gestor.
Ao conectar prefeituras, universidades, órgãos de controle e a população, o Fórum estabeleceu um compromisso de cooperação regional para que as boas práticas apresentadas em Santa Terezinha de Itaipu continuem se multiplicando pelos municípios do Oeste paranaense.






