Casa de noti%cc%81cias   1144 x 150

PROSA E POESIA

Onde estive essa manhã

Onde estive essa manhã há espaços mal-articulados
cadeiras cinza ou azuis são dispostas próximas às outras
pessoas indispostas aguardam atendimento



02/09/2026 - 23:38
Por Cleonice Alves Lopes
Cleonice Alves Lopes

Cleonice Alves Lopes

Cleonice Alves Lopes é poeta, escritora, mediadora de leitura, professora e mestra em Letras. A escrita e a leitura de poemas e contos são algumas das atividades literárias com as quais é comprometida, considerando-as também, atividades terapêuticas que a tem salvado em tempos de céu cinzento. Possui poemas e contos publicados em coletâneas e antologias com o coletivo Mulherio das Letras, tendo, inclusive, organizado uma Coletânea de contos em 2018 com o selo do movimento.


Onde estive essa manhã há espaços mal-articulados

cadeiras cinza ou azuis são dispostas próximas às outras

pessoas indispostas aguardam atendimento

Algumas tossem todo o tempo; outras batucam com os dedos em pastas de plástico que trazem no colo

A conversa dessa gente é uma contravenção

diante do cartaz branco com letras azul-marinho escrito SILÊNCIO


Onde estive essa manhã há paredes brancas com alguns acessórios em azul-marinho

a iluminação é fraca, fosca, triste

As pessoas comentam suas tristezas, reclamam do atraso e espirram e tossem e falam em sussurros audíveis demais

Onde estive essa manhã há muitas salas frias, desconfortáveis, distantes

há um computador e algumas tentativas de proximidade,

porém a burocracia da digitação de dados e perguntas programadas não permite,

mas há uma árvore

Pela janela veneziana de vidros claros e contornos azul-marinho eu vejo a árvore

o computador não a vê, está de costas para ela

na árvore meu olhar se perde

encontra a vida que não sente naquele lugar

de espaços mal-articulados,

de paredes brancas e frias,

de iluminação fraca e triste

Onde estive essa manhã, felizmente, há uma árvore



Arte selma