Onde estive essa manhã há espaços mal-articulados
cadeiras cinza ou azuis são dispostas próximas às outras
pessoas indispostas aguardam atendimento
Algumas tossem todo o tempo; outras batucam com os dedos em pastas de plástico que trazem no colo
A conversa dessa gente é uma contravenção
diante do cartaz branco com letras azul-marinho escrito SILÊNCIO
Onde estive essa manhã há paredes brancas com alguns acessórios em azul-marinho
a iluminação é fraca, fosca, triste
As pessoas comentam suas tristezas, reclamam do atraso e espirram e tossem e falam em sussurros audíveis demais
Onde estive essa manhã há muitas salas frias, desconfortáveis, distantes
há um computador e algumas tentativas de proximidade,
porém a burocracia da digitação de dados e perguntas programadas não permite,
mas há uma árvore
Pela janela veneziana de vidros claros e contornos azul-marinho eu vejo a árvore
Pela janela veneziana de vidros claros e contornos azul-marinho eu vejo a árvore
o computador não a vê, está de costas para ela
na árvore meu olhar se perde
encontra a vida que não sente naquele lugar
de espaços mal-articulados,
de paredes brancas e frias,
de iluminação fraca e triste
Onde estive essa manhã, felizmente, há uma árvore




