Era domingo de carnaval, mas não se ouvia samba, nem marchinha. O que ocupava o espaço público era o luto, mulheres de preto e branco. Preto do luto pelas tantas vítimas do feminicídio, da violência contra às mulheres, pela memória de Andressa Dani de Souza, morta há uma semana. O branco num pedido de paz, respeito a vida das mulheres, as suas escolhas e aos seus corpos.
A voz das mulheres, uma a uma ganharam espaço e acolhimento. Uma delas que se disse sobrevivente da violência doméstica como mulher, mas também com criança lembrou sua luta e clamou pela união das mulheres. “Eu cresci em um lar onde eu tinha pais alcoólatras e constantemente me faziam sair correndo com meus irmãos para sobreviver. A história que aconteceu esse final de semana daquelas crianças (que foram mortas pelo pai) me deixaram completamente chocada, porque eles não tiveram tempo de correr, assim como eu corria com meus irmãos na madrugada, para sobreviver! Não podemos mais nos calar. Eu espero que este momento, não se encerre por aqui. Nós somos a maioria da população brasileira e eu ainda não entendo por que que nós nos permitimos ser dominadas por lei criadas por homens que se protegem”. Ela clamou, para que as mulheres se mobilizem por justiça, por leis que protejam as mulheres, mas também, que punam agressores e limitam os espaços que homens violentos possam ocupar.
Outro relato comovente, escancara a urgência da luta pelo fim da violência contra as mulheres, mostrou também como a violência impacta na vida de todos. “Há um mês eu quase perdi duas irmãs minhas. O ex-marido de uma delas as esfaqueou. Ele ainda está foragido, um mês após o ocorrido saiu o pedido de prisão dele. Depois de um mês, onde vão achar? Mas o agressor prometeu que vai voltar e terminar o serviço! A quase um mês que eu não vejo minha mãe, minha irmã - eu tenho medo de ir lá, ele chegar e atirar na gente. Nós estamos clamando por mais justiça pelas mulheres”.
Violência epidêmica
A Assistente Social, Jaqueline Machado disse que está no serviço público há mais de 15 anos e mais da metade desse tempo atua no enfrentamento à violência contra as mulheres. Ela lembrou que o pedido de socorro, muitas vezes, chegava pelas suas redes sociais. “Eu já estive com várias mulheres na delegacia da mulher, pessoas que não tinham ninguém por elas e que eu nem conhecia, mas eu dizia: sim eu vou contigo! Porque, às vezes, é só isso que falta, alguém que acredite naquilo que ela está dizendo, enquanto todo o resto diz que ela está mentindo, que ela é culpada, ela provocou...
O feminicídio é a pior expressão de uma sociedade que se estrutura no machismo, antes disso várias outras formas de violência já aconteceram, seja psicológica, patrimonial ou tantas outras. Porque esse é um padrão de comportamento e a gente precisa cada vez mais dialogar sobre isso”.
Jaqueline alertou para o caráter epidêmico da violência contra as mulheres e a necessidade de defendermos, apoiarmos e ampliarmos as medidas protetivas. “A gente não pode cair no discurso de que as medidas protetivas de urgência não funcionam. Em Toledo, temos mais de 1200 mulheres que estão sob medida protetivas de urgência. Programas municipais como aluguel social são um suporte importante para as mulheres que estão em maior risco, mas tristemente, nós ainda não temos na nossa cidade, a Casa Abrigo! E aqui vai um apelo para que isso aconteça urgentemente, pois nós estamos desde o início do ano passado sem a possibilidade de inserir as mulheres nem mesmo na Casa de Passagem, para que elas possam sair da situação de violência. Então nós estamos num contexto em que: se uma mulher precisar sair de casa para fugir da situação de violência ela vai estar na rua”.
A vereadora, professora Marli revela dados que ampliam ainda mais as estatísticas. Ela destacou que só no seu gabinete em 2025, recebeu 42 mulheres, buscando ajuda pois sofreram violência física ou eram vítimas de assédio sexual. “Não podemos aceitar essa violência, precisamos nos unir e seguirmos mobilizadas, formarmos uma rede de apoio, solidariedade, denúncia e proteção. Precisamos educar os homens, para o respeito as nossas decisões e para o respeito aos nossos corpos”.
A Diretora da Secretaria da Mulher, Josines Turella defendeu que a morte da Andressa não seja mais um número na estatística ou uma manchete passageira. “É uma história interrompida pela violência que ainda atinge tantas mulheres. O feminicídio não é um caso isolado é reflexo de uma cultura que silencia e mata e por isso dizemos basta. Como representante da Secretaria da Mulher reafirmo o compromisso com a vida das mulheres com políticas públicas eficazes acolhimento, prevenção, proteção e justiça. Não vamos nos calar, nem retroceder! Que o nome da Andressa seja um símbolo de luta e que nossa presença aqui mostre que nenhuma mulher está sozinha, estamos aqui para exigir justiça por Andressa, por todas que vieram antes dela, e pelas que virão: nenhuma mulher a menos”.
Para Ana Carolina, pesquisadora da Unioeste, mesmo diante da dor por tantas vítimas de violência e feminicídio é preciso transformar essa dor em luta por uma rede de atenção que consiga, cada vez mais, ampliar o atendimento e que todas as mulheres que estão em situação de violência consigam acessar os serviços, consigam ter uma rede de apoio e que elas sejam efetivamente protegidas, mas mais do que isso, fortalecer as ações socioeducativas. “Que a gente possa dialogar sempre com homens, mulheres, meninos e meninas sobre o enfrentamento à violência, que saibam que não é permitido uma sociedade violenta, seja ela, contra criança, adolescente, mulheres ou idosos. Que esse sentimento de revolta, dor e luto, possa virar luta coletiva e fortalecimento e ampliação das políticas públicas e garantia do direito das mulheres”.
Advogada Maria Cecília Ferreira, integrante da Comissão de Estudos sobre Violência de Gênero (Cevige) da Subseção de Toledo da OABPR, destacou que o ato público é a expressão do sentimento coletivo de dor e de revolta.
“É o momento de levantar a nossa voz para dizer basta homens, parem de nos matar. Cuidem de suas frágeis masculinidades, porque o arrependimento tardio não conserta o malfeito e não traz a vida de volta. Nós mulheres não somos objetos de posse, não somos coisas para vocês disporem... não existimos para satisfazer a expectativas alheias. Somos sujeitos de direitos, donas de nossas escolhas e seres humanos completos e merecemos respeito à nossa integridade física, à nossa dignidade e à nossa liberdade de ser e de agir da forma como quisermos. Estamos num mundo para trazer vida, viver uma vida livre de violência”.
A socióloga e militante feminista, Moema Viezer reafirmou a necessidade de um repensar a sociedade. “Precisamos passar por uma reforma estrutural porque vivemos numa cultura de machismo, a cultura do patriarcado que naturaliza a violência dos homens”. Moema cobrou a importância dos homens se unirem na defesa da vida das mulheres e fez um chamado para ampliar o diálogo por meio da mobilização do 8 de março – Dia Internacional das Mulheres.











